9/8/2007
noutro lugar
mudei-me para esse sítio no dia 02 de dezembro de 2004. no começo estranhei, principalmente a paisagem: sempre foi um tanto asséptico por aqui. eu quero dizer, com todo esse branco na volta, embora goste do laranja que vibra em alguns galhos. já tinha locado essa terra fazia alguns meses, mas era um arrendamento de trabalho, então não podia morar. precisei trocar o contrato e essas coisas, isso tudo porque morar com Alice começou a ser bastante difícil. eu queria pintar as paredes e ela não deixava, queria trocar algumas coisas de lugar (isso que as pessoas fazem quando moram em tal parte), e ela insistia que não. as mudanças lhe davam enxaqueca, dizia ela. mas se fosse só isso. eu não sei como algumas mulheres conseguem virar uma e outra, sendo que outra e uma nunca se cruzam. ela estava muito bem em um dia e no outro abria as portas de um armário, ou uma gaveta, tudo sempre cheio de coisas do seu passado. fazia-me ficar um bom tempo olhando todas essas recordações ao seu lado. ela chamava de recordações, eu chamava de tralhas, o que a deixava bastanta brava e por isso me dava chutes nas canelas com seus pés gordinhos.
acho que cansei de levar chutes na canela, enquanto pedia que ela fechasse logo aquele baú sem fim. cansei também do jeito escuro que ela insistia em pintar as paredes, parecia que sol nunca entrava por lá. então fui embora.
alguns meses depois, Alice morreu. vocês devem lembrar, acho que comentei na época. eu não gosto muito de lembrar desses dias que rondam a morte da Alice, porque andava por demais abafado e também porque as más lembranças sempre misturam com a barulheira infernal de uma bateria de escola de samba. e logo, quem sofre com a enxaqueca sou eu.
gostei de morar aqui. gostei de morar em um lugar mais claro, e também gostei de não precissar levar nas costas todos os armários empoeirados da Alice. ela era boa, mas confesso que morrer não foi um mal tão grande. ruim foi só meio tempo antes e meio tempo depois.
tudo a gente acostuma. gosto de ver o brilho laranja que salta de vez em quando, sincronizado, no meio dessa claridade toda. é bom descobrir uma cor e pensar que gosto ela tem. laranja me refresca e tudo isso foi por um tempo muito bom, até que a imobiliária responsável fechou.
deixaram que as pessoas que já tinham seus arrendamentos continuassem plantando e criando coelhinhos (uma época tive uma criação de coelhinhos, mas acabei por vomitar grande parte no apartamento de uma senhora em Paris). também se podia comprar a terra, e comprando a terra algumas regalias eram concedidas.
eu não quis.
porque não tenho dinheiro, as mancuspias cada vez mais tomam o meu tempo, e elas não são, digamos, uma criação muito lucrativa. o pomar de laranjas rende alguma coisa, mas também mal dá para comprar as sementes para o próximo ano. fora que a pilha de livros aumenta de tal jeito, que não pude mais sacudir cada exemplar, todas as vezes que ele precisse ser sacudido. arrendatários não têm direito a nada. o espaço é cada vez menor e a infraestrura é péssima. não podemos mexer em nenhuma cerca e toda vez que queremos abrir uma simples janela é como ter que reconstruir a parede. sem abrir janelas, ou com janelas que abrem para o nada e não tem conserto, os livros cada vez mais cheios de areia. assim é morar por aqui. fora que ou você deixa sua porta aberta para qualquer um, ou não recebe visita de ninguém. não deixam arrendatário escolher quem pode ou não colher uma laranja, ou brincar com uma mancuspia pequeninha. está cada vez mais difícil andar por aqui.
procurei outro sítio, um que me desse a chance de fazer benfeitorias. encontrei e vou me mudar. este é meu último dia por aqui e não quero olhar muito em volta, ou essas coisas. fico sempre em dúvida do que levar comigo. creio que nada levarei, ficará tudo por aqui até a administradora deixe que a terra seja ocupada. provavelmente, em alguns meses ela irá botar fogo em cada coisa que construí.
se alguém acha que tenha alguma coisa que valha a pena guardar, deixe um recado, ou então pode mandar dizer por e-mail. o que é, e em que época foi. então, eu carrego.
agora vou.
quem quiser me acompanhar: www.ordinariedades.blogspot.com
cometido por dani.langer | 9/8/2007 05:58:23 PM
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8/30/2007
É engraçado não morar na China, mas muitas vezes ser interpretada como se falasse chines.
Sobre o caso Wikipédia, acredito que as pessoas não entenderam o motivo da manifestação. Portante, para que isso não fique com cara de "pirraça", alguns pontos precisam de esclarecimento:
- Em nenhum momento, ao tentar disponibilizar o artido do Inventário, objetivou-se a Publicidade ou Divulgação. Para isso, uma assessoria profissional e altamente capacitada foi contratada.
- O objetivo era fazer com que esse trabalho constasse na enciclopédia, assim como constam milhares de outros livros (livros que não são, em nossa opinião, melhores ou piores que esse). Por isso a inquietação: o que faz uma obra ter o direito de ser citada (ou um autor)? A notoriedade, termo usado pelos moderadores, está ligado ao seu reconhecimento pelas massas? Então eu poderia entender que é uma enciclopédia somente para aqueles que aparecem na TV? Os livros que podem ter registro devem possuir um número mínimo de venda? E também devem ficar semanas, meses e anos entre os mais vendidos?
- O que leva a uma questão relativamente simples: apenas questionamos a parcialidade de critérios. Que são excussos, confusos e fora de foco. É uma lei que deve ser respeitada apenas porque existe, mesmo que ninguém se dê ao trabalho de esclarecê-la. O que nos indignou (explicarei mais uma vez já que devemos falar, além de chines, grego), é que a escolha dos artigos parece ser arbitrária.
- A vontade de levar isso a público tomou forma quando verificamos que outros artigos estavam na mesma situação. Alguns com relevância muito maior que o nosso: como artigos sobre inclusão social através da Música, arte, etc.
- A arbitrariedade é uma característica da versão brasileira. De acordo com a idéia original do portal, o artigo poderia fazer parte "desse bem público" (ou semi-público, somente para "notórios").
Por último, é claro que a Wikipédia não tem nenhhuma obrigação de aceitar qualquer coisa que por lá caia. E agora serei muito repetitiva, mas pode ser que assim, repetindo e repetindo as pessoas passem a entender chines: os moderadores da Wikipédia deixam passar material com o mesmo tipo de conteúdo que se tentou publicar: Referências bibliográficas.
FOI SÓ ISSO.
cometido por dani.langer | 8/30/2007 03:27:48 AM
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8/29/2007
Fiquei pensando na frase do Beatty, e com ela na cabeça fiz uma busca rápida na Wikipedia.
Encontrei, em pouquissimos segundos:
- Paulo Coelho e toda a sua (hahahaha) obra.
- Sidney Sheldon e tudo aquilo que ele, e o grupo que escreve por ele, lançou.
Até aí, "dê as pessoas competições onde eles ganham ao se lembrarem das letras das canções mais populares..."
Porém, sempre acho que podemos encontrar algo PIOR na vida:
- Banda Calypso (claro, porque isso sim é notoriedade!)
- Bruna Surfistinha: artigo para ela, para o seu blog e para os dois livros publicados.
Creio que todo a porcaria citada tem o direito de estar na Wikipedia, afinal o portal é uma enciclopédia. E em enciclopédias escrevemos aquilo que foi (no caso, é) produzido pela sociedade. Não importa se o grupo produz arte, ou se produz lixo. Se contrói uma TABA ou ARRANHA-CÉU. As moradias indígenas lá estarão, assim como o Empire States.
Logo, por que em uma enciclopédia-viva, livre, não pode constar:
- o "Inventário das delicadezas" (ele é PIOR, ou é menos "produção social" do que "O Veneno do escorpião"?)
- traduções feitas com cuidado, que citam a fonte, mas que não foram feitas por amigos dos moderadores?
- o perfil de um músico que organiza grupos em comunidades carentes e com esse projeto contruibui para a inclusão social? (ele é MENOS músico do que os Calypsos?)
VERGONHA
cometido por dani.langer | 8/29/2007 01:51:16 AM
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Ray Bradbury, em Fahrenheit 451 conta a história de um lugar onde os bombeiros não apagam incêndios. Eles incitam o fogo, para que o fogo queime livros. Numa sociedade que possui a aparência da felicidade em seu nível mais alto, a informação trivial é boa e o conhecimento e idéias são ruins. O Capitão dos bombeiros Beatty explica desta maneira, "Dê as pessoas competições onde eles ganham ao se lembrarem das letras das canções mais populares.... Não lhes dê a droga da filosofia ou sociologia que une tudo. Isso trás melancolia."
O livro de Bradbury se tornou um clássico pela assustadora e melancólica visão do futuro. Na internet, esse futuro está virando presente. Como não existe "a temperatura na qual os pixels pegam fogo", os moderadores de algumas comunidades virtuais, que se dizem livres - os atuais bombeiros da rede - abusam do direito de apagar, suspender, deletar, ou seja, incinerar assuntos que fujam daquilo que julguem pertinente. Isso está acontecendo na Wikipedia, "a maior enciclopedia livre" da web.
Abaixo, transcrevo o manifesto "A falácia da liberdade do Wikipédia". Esse manifesto está correndo o mundo virtual, real e qualquer mundo que possa existir. Leia, e se concordar que ninguém tem o direito de boicotar a livre expressão, por pura ideologia ou "gosto pessoal", divulgue.
A falácia da liberdade do Wikipédia
Tentando driblar os custos de uma publicação independente, os autores do Inventário das Delicadezas – antologia de contos de alunos da Oficina Literária do escritor Charles Kiefer - criaram uma estratégia de pré-venda que, além de bonita e criativa, é vantajosa para o leitor que queira pagar menos que o preço de capa.
Até aqui você leu o início do release de divulgação do tal livro, e vai perguntar, ok, o que isso tem a ver com o Wikipedia, a maior enciclopédia supostamente aberta a colaborações e inclusões com a livre participação de seus leitores. Explica-se: no dia 27 de agosto, procurando novas formas de divulgar o livro da qual participa, uma das autoras criou um perfil no Wikipedia Brasil e incluiu lá dois artigos, relacionados entre si. Um, chamado Vinte Pilas, com referência ao preço de venda do livro mais os postais antes do lançamento, já devidamente excluído pelo comitê de administradores, e o outro chamado Inventário das Delicadezas - falando do projeto do livro, de como os autores vêm trabalhando seus textos há meses e agora finalmente conseguem, de forma independente, publicar - que está sob avaliação do tal comitê, composto de pessoas que já excluiram diversos artigos sobre artistas e bandas que julgaram irrelevantes por não serem conhecidos.
O que torna um artigo, um assunto, uma banda, um livro, qualquer coisa, relevante? E quem tem o direito de estipular os critérios dessa definição? Considerando-se que não estamos falando de nenhum dicionário de verbetes de um grupo social definido por sua profissão, como médicos ou advogados, em que a especificidade e a relevância são fáceis de definir, na web – no espaço democrático, anárquico e auto-governante que é a web – tentar criar parâmetros e limitações ao que é importante ou não, é, no mínimo, ridículo. Afinal, como é que um professor aposentado, que lê os clássicos e escuta jazz, só para criar um exemplo, poderá dizer qual banda local de rock é relevante para o restante da população? Como é que alguém pode avaliar estando de fora? Como é que alguém se permite o direito de excluir um artigo do Wikipedia apenas porque não conhece o músico ou nunca ouviu falar dos escritores?
Quanto ao artigo intitulado Vinte Pilas (em que a primeira definição era "gíria gaúcha para vinte reais"), sua exclusão da enciclopédia dita livre foi correta, uma vez que o banco de dados ali não se presta a divulgações comerciais, mas é certo colocar em votação passível de exclusão um artigo referente a um livro de novos e promissores escritores apenas porque "carece de notoriedade", conforme explicou o moderador (censor?) Dguy, na justificativa para querer a exclusão do artigo do site em que, conforme o próprio slogan diz, todos podem participar e colaborar.
Se você que está lendo isto agora acredita no direito de estar presente na maior enciclopédia ativa do mundo, talvez não pela notoriedade mas sim pelo simples fato de existir, por favor, entre lá no Wikipedia, procure por Inventario das Delicadezas e apóie a presença do artigo sobre o livro. Sabe-se lá qual futuro Kafka pode ser cortado e ter sua obra queimada da web só porque ainda não ficou famoso. E se isso não é censura, de repente está na hora de alguém ir lá corrigir o verbete para os administradores do site.
cometido por dani.langer | 8/29/2007 01:32:25 AM
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8/23/2007
e aí, já pegou o teu cupom?
agora tu já pode comprar teu Inventário das delicadezas, pela pré-venda que começa amanhã, dia 24 de agosto. O mais legal é que fazendo a pré-venda, além do cupom-bonito aí de cima, o leitor ainda leva uma coleção especial de 10 postais alusivos aos contos publicados.
quer mais barbada? tudo isso tem um super-desconto: R$ 20,00 (o preço de capa está previsto para R$ 29,90).

cometido por dani.langer | 8/23/2007 08:17:17 PM
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8/20/2007
:: momento de falar dO livro::
isso mesmo. O Livro, com artigo e em maíscula. Porque O Livro é um projeto acalentado desde o ano passado.
Foram muitos encontros, muitas reuniões. Muita discussão sobre o Futuro da Literatura Brasileira (quiçá Mundial) para que em setembro todos carreguem fagueiros seu exemplar d´O Livro.
Mas afinal, o que é O Livro?
10 autores, colegas de turma da Oficina Literária Charles Kiefer, darão a cara, ou as letras, à tapa no próximo mês. Trata-se do Inventário das delicadezas, antologia de 30 contos, apresentada pelo Kiefer e lançada pela Editora Nova Prova.
O lançamento já tem data: dia 28 de setembro, sexta-feira, as 19:30 na Palavraria - Livraria-Café (vocês já sabem: aquela na Vasco, 165, quase esquina com a Fernandes Vieira e do ladinho da Espaço Vídeo).
Falarei mais sobre o Inventário em posts futuros (afinal, esse é um dos motivos do meu sumiço: imersão total no labirinto, praticamente borgeano, do mundo editorial).
Hoje convido todo mundo a visitar o Invetário na web, e conhecer um pouco mais dos 10 autores que coletam uma ou outra delicadeza por aí:
wwww.inventariodasdelicadezas.wordpress.com
cometido por dani.langer | 8/20/2007 11:30:08 PM
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8/11/2007
"dani, quando vai ter post novo?"
- hoje. olha que bonito. um post novo.
"dani, que massada! agora tu só escreve de futebol!"
- é mentira, eu não escrevo NADA desde junho.
"só porque o Grêmio não foi campeão tu ficou revoltadinha e não escreveu mais nem de futebol, néam?"
- lá-lá-lá. eu tenho coisas mais (in)úteis para com o que me revoltar. e o grêmio só foi Vice-Campeão porque passou por todas as fases classificatórias.
"tá. mas e ae? tu vai voltar?"
- vou. vou. vou. mas como são chatas...
"mas não vai escrever mais essas coisas de futebol, néam?"
- não, não vai ser coisa de futebol (de fato, muito chatas)
++++++
(sempre tem alguém que chega depois e vem saltitando)
"aahhhh, mas eu achava tão bonitas as coisas do futebol! tão lúcidas! tão poéticas! tão empolgantes! melhor que muito cronista esportivo...praticamente um Paulo Santanna do mundo bloguístico e "
- tá, puxa-saco. as coisas do futebol continuam. mas agora estão aqui ó: www.mondogol.blogspot.com
cometido por dani.langer | 8/11/2007 07:07:32 PM
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6/20/2007
Estão dizendo: o Boca não é o Caxias.
É claro que não é. E a torcida gremista sabe. O mais importante: diretoria,comissão, jogadores e afins também o sabem.
Foi bastante natural o Grêmio ter usado esse exemplo, em primeiro lugar, para mostrar que o resultado da Bombonera é reversível. Além de se tratar do mesmo placar, tratava-se de um jogo de decisão. Onde, por mais que se soubesse da superioridade da equipe de Porto Alegre, dava-se por quase certa a classificação do time da serra.
Por outro lado, é muito óbvio que os especialistas e comentaristas em futebol chamem a atenção para o fato de que uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra e bem diferente. Assim como também é compreensível a eufórica manifestação da torcida colorada: O Boca não é o Caxias, o Boca não é o Caxias! - como se existisse dentro deles um abismo tão grande, que cada um reproduz em sucessão o próprio eco. Dos especialistas, vejo que chamam a atenção para o perigo de querer deslocar um feito para uma batalha que ainda está por vir. Dos histéricos, eu acho graça. Só posso rir em ver o verdadeiro pânico: cada grito de "O Boca não é o Caxias!" soa como um: "Argentinos, pelo amor de Deus, não os deixem ganhar mais essa!!"
* * *
O futebol é meu esporte preferido. É fanstástica a combinação de técnica, força, agilidade e tática em uma boa partida. Uma combinação que as vezes tende para um lado, das equipes do jogo puxado, forte. Ou que funciona como tabuleiro de xadrez, jogadas rápidas, curtas, passes milimétricos, a refinada técnica dos dribles constrangedores e curtos, saídos sabe-se lá como, no menor dos espaços possíveis. Um esporte que apesar de coletivo valoriza o talento individual, premiando o torcedor boquiaberto com lances onde garotos conduzem a bola na vertical ignorando adversários, que driblam como se dançassem num passo recém inventado - deixando o convidado estatelado no salão.
O futebol é meu esporte favorito porque concretiza o sonho da inclusão social e possibilita que qualquer criança possa sonhar com um futuro digno. Que possa ser cidadão. É um esporte que pode ser praticado por todos, e todos ao mesmo tempo. Pode-se jogar na rua, no campinho da escola, na praia. Entre meninos e meninas, e não importa a cor e a posição social para ser artilheiro ou bom na zaga. O futebol pode mostrar que todos nós somos iguais, mas somos também diferentes, e que é tão bonito ser diferente que isso deve ser respeitado. Afinal, são onze jogadores com características diversas que montam um time vencedor, e não onze réplicas.
Agora, tem uma característica no futebol que não faz parte da técnica, da tática e nem é social. Essa característica faz parte de uma partida, e dela somente: a imprevissibilidade. A imprevissibilidade tem diversos fatores. É um sistema, portanto é formada de diversos agentes que atuam dentro do jogo. Como o sistema não é estável (cada jogo terá o seu), esses agentes são totalmente variáveis (embora sejam, na partida em que atuam, fundamentais ao resultado).
Quem gosta e conhece futebol sabe que costumamos tentar fugir da imprevissibilidade. E para isso buscamos as estatísticas, os históricos, vemos os lances das rodadas, os desempenhos dos jogadores. Para isso estudamos os times numa tentativa de escrever o roteiro de um filme que só poderá ser dirigido no momento da projeção. É válido e muitas vezes acertamos. Outras vezes não.
Porque não há como prever o que imprevíssivel é. Podem formar o sistema imprevissibilidade, a chamada "mística de um clube", ou a garra, ou a tradição. O peso da camisa. A torcida, o estádio que vira caldeirão. Um atleta com pé de ouro. Um centroavante com mão abençoada. Um goleiro com reflexo cometa. Um goleiro sem reflexo. A jogada fantástica e única do jogador mais desacreditado. Imprevíssivel o futebol, faz o time com grandes talentos se tornar um igual perante ao time mais fraco taticamente, mas com mais força de conjunto. A sede da vitória. O brio. O orgulho ferido. O desafio latente de chegar onde uns já chegaram, para provar que é possível chegar onde opositores digam que é impossível chegar.
Se não fosse imprevissível, o Grêmio não teria tomado um grande susto na Libertadores de 95. Chegou em São Paulo para jogar o segundo jogo da semi-final contra o Palmeiras com a vantagem do placar dilatado: no jogo em Porto Alegre havia ganho de 5x0. A imprensa dava como certa a classificação gaúcha, e a torcida tricolor também. E se o Jardel não tivesse feito um gol logo no início do primeiro tempo, o bi-campeonato poderia ter sido ameaçado. O que se viu naquela noite foi um Palmeiras feroz, rápido, inacreditável, guerreiro e invencível: não parou enquanto não devolveu o placar, vencendo de 5x1.
A imprevissibilidade faz parte do futebol. E enche de glória o time vencedor, ou de lágrimas aquele que vê o título ir para as mãos do time mais fraco. No esporte onde nada é impossível, o Barcelona, clube de maior prestígio e com o melhor elenco do futebol mundial em 2006, perdeu a taça de Campeão do Mundo para o Internacional, conhecido como "o time da cidade do Grêmio". E porque tudo pode acontecer no irônico esporte que leva multidões à loucura, o craque da partida não conseguiu atingir a meta, e foi o jogador mais medíocre em campo que retornou para casa como herói.
No ano de 1996, o Grêmio chegou à final do Campeonato Brasileiro. Depois de perder de 2x0 para a Portuguêsa em São Paulo, precisava, ao menos, do mesmo resultado em casa. O primeiro gol só veio no final da primeira etapa, dos pés de Paulo Nunes. A angústia permaneceu até quase o final da partida. Ao seu lado, permanecia viva a euforia, a vibração e os gritos de incentivo da torcida. A massa azul fazia tremer o Olímpico, que extravassou de alegria quando Aílton, um jogador desacreditado por muitos, da intermédiaria e num passo quase incerto, estufou a rede com o chute mais certo de toda a sua vida: o gol do Bi-Campeonato Brasileiro.
Iniciar uma partida com um placar de 3x0 é uma vantagem muito grande. Mas a partida de hoje a noite terá 90 minutos. O mesmo tempo da partida da semana passada. Semana passada, o time da casa fez 3 gol em noventa minutos. Então, por que achar tão estúpido ou impossível que o time da casa faça três gols hoje? Três gols é o resultado que o Grêmio precisa para zerar o placar. E mostrar que 3x0 era uma vantagem muito grande. Uma vantagem catastrófica se não estivessemos falando de futebol.
cometido por dani.langer | 6/20/2007 04:49:21 PM
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6/19/2007
NÓS ACREDITAMOS
Enquete esportiva, hoje no Terra:

cometido por dani.langer | 6/19/2007 03:05:47 PM
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6/14/2007
Platinos, Castilhanos, Gauchos, enfins
Inveja mata e cega, dizem. Punheta demais também cega e deixa tísico, dizem. Sim, refiro-me aos colorados.
Mas antes, digressão: eu sei que o Inter é um time popular, que nasceu "do povo para o povo". Não tem como não saber, ou esquecer, porque passam a vida com esse papo muito chato do Grêmio ser elitista e blablabla. Cada vez mais eu tenho certeza que esse papinho é só a desculpa mais esfarrapada que um grupo gigante de torcedores ignorantes e preguiçosos encontraram para continuar ignorantes e preguiçosos.
Muito bonito um time ser "popular" e ter orgulho de ter nascido "do povo", contra o clube "elitista e preconceituoso". Convenhamos que nem por isso seus torcedores devam ser ignorantes. História nunca é demais, muito menos quando é a história do próprio estado. O lugar onde se vive.
Tá, mas afinal, Daniela. O que tu quer?
Eu quero é dizer que vi nascer a Alma Castelhana. Torcida tricolor que sempre teve como propósito fugir da alcunha das torcidas organizadas e tentar trazer para o Olímpico um jeito bonito de torcer. Não para imitar. Nem para copiar. Apenas porque é bonito. Alma Castelhana não quer dizer, em nenhum momento, parentesco com torcida Argentina ou com o Boca. Isso só em primeiro lugar.
Porque não é só na Bombonera que se faz Avalanche. Eu não culpo os colorados de não saberem isso, porque eles passaram tanto tempo sem disputar torneios internacionais que realmente não devem fazer a menor idéia de como as torcidas se comportam por essa América toda. Mas eu digo: analfabetismo histórico e cultural é uma coisa que me enoja. Resumindo: Castelhano não é sinônimo de Argentino.
Castelhano, muito a grosso modo, é o espanhol falado nos países da América Latina (assim como em outros países). Mas isso não importa. Importa que, "castelhano", costuma-se chamar aquele vivente que provém ali dos pagos, dos países vizinhos, e que depois que estabeleceram as fronteiras e terminaram com os contrabandos, continuaram a falar o espanhol e nós o português. Castelhano é argentino, é uruguaio, é paraguaio. É qualquer um que castelhano hable, muchacho. Se vocês perderam essa aula, que as escolas repetem e retepem sempre que chega a semana Farroupila, prestem atenção.
Muito antes de existir Grêmio ou Inter, existia um bando de gente que zanzava para lá e para cá. Num entremeio, um ir e vir bárbaro entre o Rio Grande, o Uruguay e a Argentina. E as fronteiras, mesmo existentes, eram total ignoradas. Vou te contar, andar por essas coxilhamas ou pegar uma balsa ali no Plata, de madrugadita, apertando entre os costados um pedacito de charque contrabandeado, era coisa de gaudério. Nesse pedaço de chão, tão no sul de um mundo que viveu sempre tão no norte, essa gente foi, enquanto crescia, misturando raízes. Gente que "peleava", porque as tais fronteiras, mesmo que ignoradas, eram disputadissimas.
E a briga era feia, de faca.
Por isso, bugrada, a alma castelhana não significa em nada descer arquibancadas aos pulos: significa ter alma de peleador, de "bagual que não se entrega", que ama sua terra, sua gente, suas cores (não vou entrar na questão corXpolítica, vão abrir um livro de história também!) e sua luta. Outro resumo: ama lutar, com valentia, pela terra que tem orgulho. É alma de herói. A torcida gremista apenas revive as origens do gaúcho, do imbatível e valente que não se rende à derrota e vara as noites percorrendo à galope cada coxilha, buscando no mais longínquo rincão a sua vitória.
Dizer que a Bombonera é a "matriz" do Olímpico é além de uma prova do velho recalque, a demonstração de total ignorância com as coisas da sua terra.
Surpreendeu-me a festa ontem a noite. Não sabia que tantos argentinos moravam em Porto Alegre. Aliás, não sabia que moravam mais argentinos torcedores do Boca do que gaúchos torcedores do Inter (leia-se ironia).
Sem demagogias, é claro que todo mundo seca todo mundo. E que gremista torce para o time adversário quando o Inter joga. Nenhum problema soltar uns foguetes durante a partida e no apito final. Isso tudo faz parte da rivalidade.
Só começa a virar patologia quando os gritos, os foguetes e as buzinas persistem pela madrugada. Moro em uma das mais movimentadas avenidas da capital, e ouvi mais buzinas ontem do que na semana passada. Abrir a janela logo que o jogo termina e gritar uma gracinha é uma coisa, sair de carro as duas da manhã, aos buzinaços, festejando uma festa que não é tua, é coisa de gente débil mental.
Ou então, de quem não tem festa para festejar. Saca o cara que não tem amigos, e por isso fica querendo invadir a turma alheia? Ele é chato. Ou o cara que não tem namorada ou nunca come ninguém e dai fica o tempo todo perguntando pros amigos verdadeiras descrições de suas vidas sexuais? Ele é chato e louco.
Queria só lembrar aos colorados que semana passada o Internacional foi campeão da Recopa. Lembrar, porque a impressão é de que já esqueceram. Continuamos no tempo de que vale muito mais um título perdido pelo Grêmio do que uma conquista pessoal. Não sei se isso acontece por um velho costume. Independente do motivo, talvez o Inter devesse mandar o Fernandão embora e usar o seu salário para pagar umas sessões de terapias de grupo e conscientizar o torcedor de que seu clube ganhou títulos importantes e agora pode até, quem sabe, começar a dar mais valor para si mesmo do que para o rival.
Sabe como é, trabalhar a auto-estima.
Pode ser muito complicado quando tua auto-estima sofre mais de vinte anos, mas o primeiro passo para a cura é reconhecer: quem goza mais vendo a trepada alheia do que com a própria, sofre de sérios problemas.
cometido por dani.langer | 6/14/2007 03:16:12 PM
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